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Por que falamos como idiotas ??? saiba porque

#1 User is offline   Marcelo Culen 

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  Posted 05 August 2005 - 07:05 PM

Por que falamos como idiotas  | 01.07.2005
Basta entrar numa empresa para ouvir uma língua que usa muitas palavras – mas não diz
nada

EXAME Leia com atenção o diálogo a seguir:

– Precisamos adotar as melhores práticas.
– Mas com foco no cliente?
– É claro! Sem isso, perderíamos nossa vantagem competitiva, afetando o bottomline no
longo prazo.
– Mas, se não nos alinharmos aos stakeholders, vamos deixar de estar agregando valor ao
negócio.

Se você não percebeu que essa conversa é apenas um amontoado de jargões gastos, palavras
vazias e frases sem o menor sentido, cuidado. Se essas expressões fazem parte do seu
vocabulário, então, talvez o caso seja grave. Você pode ser vítima de uma das maiores
pragas do mundo dos negócios: falar como um idiota. A comunicação transparente nunca foi
tão importante para a sobrevivência das empresas. E, paradoxalmente, nunca tantos usaram
tantas palavras para dizer tão pouco. Até recentemente esse assunto era tema de piadas.
Neste ano, no entanto, Brian Fugere, Chelsea Hardaway e Jon Warshawsky, três consultores
da Deloitte, lançaram um livro que se propõe a estudar seriamente o tema: Why Business
People Speak Like Idiots ("Por que os homens de negócio falam como idiotas", sem
previsão de lançamento no Brasil).

Os executivos de hoje falam de maneira evasiva, argumentam os autores, especialmente
quando suas empresas têm notícias ruins a dar aos acionistas. No Brasil, há uma
agravante. Nossos homens de negócios importam termos usados pelos americanos sem nem
tentar traduzi-los. Como resultado, surgem preciosidades como os verbos upgradear,
deliverar ou performar -- inexistentes em qualquer dicionário digno do nome. "A
baboseira se tornou a língua dos negócios", escrevem os consultores da Deloitte. Rareiam
executivos que sabem se comunicar com clareza, como Jack Welch, o ex-presidente da GE,
ou Samuel Klein, fundador da Casas Bahia.

Quando os presidentes capricham no discurso rebuscado, entra em ação uma espécie de lei
da gravidade, descrita pelo palestrante e ex-colunista de EXAME Max Gehringer: "Os
diretores querem falar como os presidentes; os gerentes, como os diretores; os
supervisores, como os gerentes; os trainees, como os supervisores; e os estudantes, como
os trainees". Uma boa amostra pode ser colhida no programa de TV O Aprendiz, apresentado
por Donald Trump nos Estados Unidos e por Roberto Justus no Brasil. Os candidatos,
recém-formados, papagueiam expressões ocas como agregar valor, alinhar ou movido a
resultados. "O idiota quer parecer esperto e, para isso, abusa de palavras pomposas",
escrevem os autores do livro. Curioso notar que ninguém fala desse jeito quando não está
trabalhando. Como no livro O Médico e o Monstro, de R.L. Stevenson, o funcionário
cultiva personalidades distintas dentro e fora do escritório. É difícil imaginar, por
exemplo, um gerente de RH que proponha à namorada um relacionamento com mais "foco no
resultado". Quando o funcionário cruza a porta de entrada da empresa, no entanto, seu
vocabulário se transforma -- e se afasta do idioma das ruas.

Por que a linguagem dos negócios se tornou tão maçante? Há alguns motivos. Faculdades de
administração, MBAs, gurus e consultores passaram os últimos 20 anos reinventando velhos
conceitos e dando-lhes novos nomes. "Nenhum consultor vai propor analisar os produtos de
uma empresa, mas, sim, um realinhamento estratégico do portfólio", diz Gehringer.
Passados os anos, termos como reengenharia, downsizing ou networking se entranharam no
bê-á-bá empresarial. A onda mundial do politicamente correto, responsável por
transformar anões em "indivíduos verticalmente prejudicados", também deixou cicatrizes
nas empresas. Funcionário, chefe e produto, por exemplo, são termos banidos do
dicionário. Hoje chamam-se colaborador, líder e soluções disponibilizadas. "Quando um
departamento de RH chama o funcionário de colaborador ou associado, quase sempre quer
esconder sua incompetência", diz Joaquim Patto, diretor da consultoria Mercer.
Tecnologias como o PowerPoint, com seus templates, também só ajudam a pasteurizar ainda
mais a linguagem. Não é fácil sair dessa situação, em que uns fingem que falam e outros
fingem que entendem. Sem uma mudança de paradigma, vamos estar falando como idiotas por
um bom tempo.

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