Iniciei o ano lendo um livro fantástico: Os Bastidores da Internet no Brasil – As histórias de sucesso e de fracasso que marcaram a Web brasileira. Me senti velha, por ver que esta história toda da qual participei já está no papel. Ler que os inimigos de ontem são aliados de hoje; que muitos desapareceram; que alguns fracos se tornaram fortes e alguns fortes se tornaram fracos; e que tudo está recém começando... Confesso que senti muito orgulho por participar desde o início de um player que não desapareceu; pelo contrário, só se fortaleceu. Parabéns a toda nossa equipe! Todos nós fomos protagonistas fundamentais! Dei novamente gaitadas com o Nizan e seu discurso de posse como presidente do iG: “Vou fazer do iG um portal mundial. E levar através dele a música, o futebol, a literatura, a beleza da mulher, o verde da Amazônia e as grandezas do Brasil. Essa é sem dúvida uma afirmação imodesta. Mas por que ser modesto com o Brasil, se Deus e a natureza não foram ?”. Gosto dele. Talvez por sentir eu mesma um pouco desta confiança irrestrita tanto em mim, quanto no Brasil. Nosso país tem a diversidade, fator fundamental para que aprendamos a viver em paz. No final do livro, até o assunto “Inclusão Digital” é levantado, apresentando os resultados da pesquisa do Marcelo Neri e sugestão dele que os números só ficarão mais democráticos a partir do momento em que o governo fizer programas concretos de inclusão digital: “As escolas são o caminho mais correto de inclusão digital de massa. Também é necessário fazer uma política de microcrédito para compra de computadores e mobilizar a sociedade civil”. Parabéns Eduardo Vieira, autor do livro!
Outro livro: “Of Paradise and Power – America and Europe in the new World Order”, de Robert Kagan, discute o paraíso vivido atualmente pela Europa, que transcende do uso da força para resolver disputas, mas que tudo isto é mantido através dos EUA, enfim... Uma leitura imperdível para quem se interessa pelos conflitos internacionais que hoje assistimos pela mídia.
Mas como o livro dos bastidores da internet no Brasil, fala na “quase”criação de uma indústria de software no Brasil, não posso deixar de comentar um pouco sobre a discussão do software livre no Brasil. Hoje, 1/3 da movimentação do setor de informática no Brasil vai para o exterior como pagamento de royalties e licenças pelo uso de programas proprietários de empresas como Microsoft, Adobe e Macromedia.
O Governo Federal liberou R$ 6,3 milhões para pesquisas no setor e vem incentivando a adoção do Linux nas administrações municipal, estadual e federal. Visando redução de despesas, a cidade de São Paulo, por exemplo, adotou em todos os computadores dos Telecentros --centros municipais de informática-- o GNU/Linux, e outros aplicativos livres --Mozilla, Galeon, OpenOffice.org. O caminho tem sido seguido por alguns ministérios, pelo Metrô de SP, pela Imprensa Nacional e outros órgãos.
Segundo Sérgio Amadeu Silveira, presidente do Instituto de Tecnologia da Informação, vinculado à Casa Civil, a economia compensa. Mas os argumentos em defesa do software livre vão além da economia de recursos. "O software é o principal intermediador da inteligência humana na era da informação. Mais grave do que implantar softwares proprietários que custam uma fortuna, é ficarmos aprisionados a uma única empresa monopolista da linguagem básica da sociedade da informação. E isso é gravíssimo", conclui Sérgio Amadeu.
E eu encerro a coluna com a seguinte provocação: estaríamos nós, brasileiros, prontos para definitivamente criar uma indústria de software no Brasil ? Conseguiríamos nós nos libertar da tecnologia externa e, quem sabe, sermos fornecedores e ditar padrões internacionais ? Ou seria este apenas um devaneio a la Nizan Guanaes ? Prefiro começar o ano com otimismo e provocando cada um de nós, brasileiros, a pararmos de adotar a postura dos fracos e oprimidos e sairmos para uma postura mista: fortes em tecnologia como os EUA e diplomáticos como a Europa atual... Acho que li demais no final de semana... Desculpa!
Mas, no mínimo, creio que os sistemas livres possam nos ajudar no combate à exclusão digital, visto que ao menos o custo das licenças de uso do software das potências tecnológicas passa a não existir nas escolas. Mas de que adianta aprender com o software livre nas escolas e depois ter que trabalhar com os padrões de mercado?
Insisto no máximo: temos que acreditar mais em nós mesmos e tomar uma atitude pró-ativa em 2004. Tudo começa pela conscientização e pelo estudo.
Lonise Gerstner é autora do livro de crônicas do cotidiano digital Paralelo 30
lonise@terra.com.br
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2004 COMEÇOU: MÍNIMOS E MÁXIMOS ARTIGO: LONISE GERSTNER
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